Simon Fernandes

Primeiro Encontro : Último Encontro teve início em 2019 como uma investigação poética e conceitual, do artista Simon Fernandes, sobre espacialidade e escultura no ambiente web. O projeto, parte do interesse na linguagem computacional, em ferramentas de código aberto (open source) e na possibilidade de construir espaços, volumes e estruturas tridimensionais a partir do próprio código — entendendo o código como materialidade, onde texto e luz operam como matéria escultórica.

O conjunto de obras é hospedado em um ambiente digital acessível por meio de uma URL, permitindo ao público navegar e experienciar a exposição de forma direta e remota. O projeto também se desdobra no campo da arte digital e dos criptoativos, estando disponível para aquisição em formato de NFT por meio da plataforma Foundation.

Nos últimos anos, tornou-se evidente que as grandes transformações dos paradigmas políticos, econômicos e sociais já não se dão prioritariamente nas instâncias institucionais tradicionais, mas nos níveis infraestruturais da própria web — nos protocolos, arquiteturas de dados e nas chamadas “caixas-pretas” dos servidores. É nesse nível invisível que hoje circulam e se reorganizam os fluxos de mercadoria, riqueza, informação e subjetividade. Trata-se de um regime de poder brando, acionado pela interface mínima entre corpo e máquina: a ponta dos dedos, as descargas elétricas, os gestos quase imperceptíveis.

A pesquisa propõe imaginar obras que emergem desses mesmos elementos infraestruturais, tensionando seu caráter funcional ao mesmo tempo em que dele se originam. O trabalho busca desarticular a lógica utilitária dos sistemas, instaurando zonas de indeterminação, falha e desvio no interior da própria estrutura técnica.

Nesse percurso, a pesquisa aproxima-se criticamente de determinados imaginários visuais da inteligência artificial, observando como muitos de seus modelos operam a partir de uma espacialidade reduzida, que remete ao “cosmismo” abstrato de Piet Mondrian — organizado em grades, retículas, linhas e campos cromáticos. Em paralelo, estabelece-se um diálogo com Hélio Oiticica, sobretudo com as noções de penetráveis e ninhos, como dispositivos de ativação sensorial e espacial.

A experiência proposta articula ainda uma dimensão fenomenológica da percepção, na qual o corpo se projeta para o mundo digital de modo análogo aos organismos moles — como moluscos — que expandem suas estruturas pela necessidade sensorial de estar em um lugar, ver, ouvir e habitar. O ambiente virtual, assim, torna-se um campo de extensão do corpo, da escuta e da visão.